Crônica

    A corrupção continua dando as cartas, com envolvimentos de todos os setores da sociedade, dos maiores aos menores, um verdadeiro terror. E cada bando procura usar as sacanagens do outro em benefício próprio, puxando a brasa para a sua sardinha. Não se vê luz no fim do túnel, parece  que tudo caminha para ficar cada vez pior. Aqui no sudeste apareceu um frio como não fazia há anos. Mas é assustador o que se vê com partidos políticos, raríssimos têm ideologia e lutam por essa perspectiva, a maioria só pensa em si mesma,em benefício próprio, para isso vendem,-se descaradamente, traem sem pudor, dá nojo o que nos é impingido. Com o grande orador romano Cícero, clamamos: “Até quando teremos de suportar tanta cachorrice!”. Primeiro presidente acusado de crime; primeiro ex-presidente condenado por crime; que desonrosos recordes! O turbilhão de notícias desabonadoras pululam diariamente vindas de todo o mundo.

   

    Poema

PRECIOSIDADES

ouro
prata
diamante
dinheiro
o máximo
para
materialistas

antiguidades
fazem vibrar
antiquários

poder
deslumbra
humanidade

sabedoria
culura
apanágio
de poucos

sexo
prazer
inebriam
endoidecem

amizade
supremo bem
para epicuristas

estar bem
consigo
com outros
com deus
auge
encantamento

canivete
dado por meu pai [há setenta anos]
bem mais simbólico que possuo

viver
questão
de inteligência

adaptações
recuos
avanços
sucessos
percalços
tudo misturado

saber fazer
de embrólios
sucos
revitalizantes
distinguir
o otimizado
do rejeitado

valorizar
desvalorizar
adequadamente

opiniões
dos outros
prudentemente
repesadas

gostar
de si mesmo
acima de tudo

calar
suas vitórias
para não atiçar
invejosos

no mais
viver viver viver
feliz feliz feliz



    Crítica Literária

    Poesia em Pedro Lyra

    Pedro Lyra nasceu em Fortaleza em 1945, aposentou-se como professor da UFRJ em 1997. Nesse intervalo foi professor também em várias das grandes universidades do mundo. Desde longa data até hoje publicou e continua publicando sobre crítica literária e, sobretudo, poesia, em vários meios e muitos livros. A fortuna crítica de suas obras é incomensurável, pela qualidade e quantidade.
    Alguns de seus livros são os seguintes: “Contágio; Poesia do Desejo”, de 1993. Nesses poemas pulsam as infindáveis artimanhas do desejo sexual e sensual do homem e da mulher, num jogo realisticamente sem limites em que o fazer-se e o desfazer-se se intermesclam a todo segundo. É uma explosão vulcânica, própria do poetar de Pedro Lyra, que remexe com o mais profundo do nosso ser erótico.
    “Desafio; uma Poética do Amor”, 2002, é um dos livros mais impactantes que li até hoje, o que é sugerido pelo próprio título da obra. O  Poeta é possuído por Vênus e Cupido, e como um verdadeiro possesso do Amor, leva-nos nesse turbilhão enlouquecedor das incontáveis facetas do Amar, que acaba possuindo-nos também  no mais profundo do nosso sentir. No final do livro, Pedro Lyra fala dos 15 anos e das peripécias mil que enfrentou para gerar esse livro de 366 páginas.
    Além de perpassar pelos sentimentos, o poetar de Pedro Lyra abarca  tudo o mais do acontecer humano, no sentido universal, brasileiro, social, político, religioso, sempre com fortíssimos poemas que são sangue, carne e osso, com um olhar tremendamente crítico desnudando subterfúgios de toda ordem. Nesse sentido, “Confronto; um Diálogo com Deus”, 2005, é uma tremenda obra em que a pequenez humana grita e esperneia diante da eternidade, do divino, dos mistérios de todo o existir; está repleto de perguntas, de anseios, na procura de entender algo essencial sobre si mesmo, os outros e o universo. Pedro Lyra não tem respostas, mas incontáveis porquês?, porquês?, porquês?.
    A problemática mundial é principal alvo de “Argumento; Poemythos Globais”, 2006, onde pululam as terríveis facetas do nosso mundo contemporâneo, poemas que tocam sem piedade nas feridas que nos maltratam, quem sabe para tentar indicar algum caminho de cura.
    “Protesto; Estados de Ser”, 2014, são os vários modos de pretensão de ser típicos de nossa sociedade, como profissões e semelhantes, que acabam sendo muito mais aparências estereotipadas do que realmente ser dignificado.
    “Situações; Mini-Anti-Parábolas da Corrupção e da Ética”, 2015, é mais um dos terrificantes livros de Pedro Lyra, que vergasta sem dó nem piedade o mar de lama em que o mundo e nosso país se afundaram, cada poema é mais demolidor que o outro.
    Para mim, Pedro Lyra é, atualmente, o maior poeta brasileiro vivo. Ele é o Profeta-Poeta, [no sentido de falar por], da humanidade do fim do século XX e início do século XXI. É um Poeta terrível que amedronta, não sei se nossa época terá coragem de adotá-lo como ele merece ou se isso vai ficar para as gerações futuras.
    Poder ler Pedro Lyra é ter de novo a possibilidade de navegar em águas poéticas originais, que hora correm mansamente, hora em atordoantes redemoinhos, sempre dentro do desvelamento pleno do acontecer humano contemporâneo.