Crônica

    O mundo inteiro parece estar passando por um turbilhão de peripécias. Uma forte crise abala todos os setores com uma intensidade nunca vista antes. Nossas seguranças de outrora estão sendo balançadas e muitas delas demolidas. Nessa situação é preciso recriarmos toda nossa interioridade, para não deixarmos que as exterioridades abalem-nos essencialmente. Temos que reaprender a viver, a redescobrir novas formas de reação e de ultrapassamento para sermos o que somos, apesar dos inúmeros empecilhos que nos atordoam.


    Poema

DESEJO

está dentro de mim
está fora de mim
está dentro e fora de mim

desejo sexual
um dos mais fortes
potente pilastra do crescimento numérico de humanos
dentro de mim, como na masturbação
fora de mim, despertado por seres sedutores
dentro e fora de mim, como numa cópula amorosa perfeita
é aceito em tradicionais e, cada vez mais numerosos novos, modos de ser
é crime em pedofilia, sadismo outras aberrações

desejos cotidianos
comer beber trabalhar descansar
calibradamente usados trazem vida e saúde
descalibradamente, fonte de vários males
excessiva gordura embriaguês desemprego estresse

desejos maus
ciúme inveja mistificação malandragem
culpam os outros pelos próprios descaminhos
costumam voltar contra quem os têm
só fomentam tristeza e dor

desejos bons
para si mesmo e para os outros
são fonte de alegria saúde felicidades


desejos impossíveis
causam estragos em quem os têm e em quem está ao lado
contínua insatisfação mau-humor doenças
deixa-se de possuir possíveis felicidades acessíveis
vive-se num inferno de utopias e imaginações por coisas inexistentes
é um contínuo doloroso inferno terrenal

desejos alcançados
através de lutas perseveranças e saudável otimismo
realizar sonhos e projetos vitais fundamentais
um dos maiores prazeres da vida




    Crítica Literária

          CRÔNICAS EM GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

          Gabriel García Márquez é um dos maiores escritores universais, com obras-primas do romance e do conto.
          Está também entre os que mais se destacam no gênero crônica; nesse setor está seu livro: “Crônicas; obra jornalística 5, 1961-1984, trad. e prefácio de Leo Schlafman. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006, 768 p.”, um conjunto de 173 textos, com a indicação das datas de suas publicações, onde García Márquez fala de tudo: políticos do seu país e do mundo, personagens marcantes de várias áreas, acontecimentos banais e da mais alta relevância, tópicos sociais, seus sentimentos e convicções, etc., etc. etc., sempre dentro do que é uma crônica jornalística; sem perder jamais o maravilhoso estilo de que é um consumado mestre.
          Todas as suas crônicas são primorosas e deliciosas de serem lidas, algumas delas tocaram-me profundamente como as que falam sobre a flor em variados tópicos, um dos mais encantadores é “Como as flores sofrem”, p. 297-300, de um lirismo enternecedor.
          Outra criação de García Márquez, “Crônica de uma morte anunciada, trad. Remy Gorga, filho, 49ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2016”
           Essa crônica faz-se por um momento do acontecer cotidiano, o assassinato de Santiago Nasar pelos irmãos de Ângela Vicário, para lavar a honra da família. Ficou repleto de recordações imprecisas e contraditórias; uma colossal nebulosa, que costuma envolver o modo de ser e de agir em profundidade das pessoas humanas.
          O narrador, que esteve presente nesse acontecimento, resolve voltar ao lugar, vinte anos depois, para entrevistar todas as pessoas que estiveram naquele momento, para tentar elucidar o que realmente aconteceu e lançar uma luz no breu que durante todo esse tempo escurecia tudo.
          Após minuciosas entrevistas, tentativas abundantes de chegar a alguma conclusão, ao final tudo está como quando o livro iniciou: nada de novo.
         O romance de Machado de Assis, “Dom Casmurro”, criou o maior enigma da literatura brasileira: Capitu traiu ou não seu marido Bentinho? Gabriel García Márquez, em “Crônica de uma morte anunciada” cria também um colossal enigma: Santiago Nasar foi ou não o desviginador de Ângela Vicário?
          Essa obra de García Márquez revela ainda que a crônica, com sua pequenez e instantaneidade, quando desvelada em todas as suas potencialidades, pode esconder valores infinitos e essenciais, em todos os modos de ser pessoa humana.