Crônica

    A corrupção continua campeando à solta, nos mais altos escalões; cada dia surgem novas denúncias, cada qual mais cabeluda que a outra; essa bandidagem joga o nome do país na sarjeta. Dizem que há falta de dinheiro, claro com o que a cachorrada rouba não sobra nada para nada mais. Queimaram criancinhas de 4 anos de idade vivas, quando estavam numa creche. Fuzilaram centenas de pessoas indefesas que assistiam a um show musical numa praça pública. Em que época estamos vivendo!     Furacões e inundações em alguns lugares; em outros, secas devastadoras, será que estamos perto do fim do mundo? Como isso não bastou, houve vergonhosa blindagem de corrupção para grandões com o mundo todo assistindo. Meu Deus, meu Deus!!


    Poema


Voos humanos

aviões
helicópteros
satélites artificiais

ar
céu
artefatos
úteis
e
inúteis

aviões
de todo tamanho
variados fins

helicópteros
imitam
beija-flor

satélites
procuram
conquistar
espaço

bombas
nucleares
mãe-de-todas
burrice sem limites

homem
sujou a terra
está sujando o céu

grande
sonho
humanidade
voar

voamos
para quê?
para onde?



    Crítica Literária

    Pedro Lyra, Poeta Maior

   
    Acabo de escrever essa crítica e me preparava para publicá-la quando, em 24/10/2017 tive notícia do falecimento de Pedro Lyra, que essa crônica seja minha homenagem ao grande poeta.

    Analisando a obra antológica de Pedro Lyra, 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, escrevi no meu livro 65 Poetas dos 50 Poemas, na primeira linha: “Pedro Lyra é um dos principais poetas contemporâneos em língua portuguesa”, no restante procurei demonstrar esse pressuposto.
Pedro Lyra possui grande quantidade de poemas em vários livros e uma monumental fortuna crítica, tanto pela quantidade como pela qualidade.
Após ler as obras do Poeta: Desafio, Contágio, Confronto, Argumento, Protesto, Situações, escrevi na Antologia Logos/Fênix, nº 26, de julho de 2017, uma convicção que, há tempos, só aumenta: “Para mim, Pedro Lyra é, atualmente, o maior poeta brasileiro vivo”.
    Pedro Lyra tem sempre mais a oferecer; o livro Decisão, 1985, marca-se por apresentar uma extrema contestação social, política e, sobretudo, poética, contra o status quo daquele período. Os poemas se fazem com toda a efervescência cultural daquela época; a burguesia e o capitalismo são postos contra a parede; a poesia é utilitária, capta o acontecer humano do momento, com toda a sua aspereza e crueldade. São poemas que resgatam sem retoques, profundamente, a história humana dessa década de 1980. O poeta sabe que seu poetar vai enfrentar problemas com aqueles que estão munidos das viseiras de antiquada tradição, que tentam impedir que a luz de verdades novas brilhe.
    Em 1991, nos Alpes italianos, foi encontrada uma múmia bem conservada, de cerca de 5300 anos, conhecida como Otzi. É Otzi o herói mitológico da epopeia de Pedro Lyra, Errância, 1996, o livro mais misterioso do poeta. A introdução de Anazildo Vasconcelos da Silva mostra que todos os tópicos teóricos da epopeia encontram-se nesse poema, mas convém notar, com a marca de Pedro Lyra, isto é, a discussão dialético-poética do estabelecido, inclusive em relação à própria epopeia.     Compreendidos esses tópicos, a obra é emocionante no desnudamento sem paliativos da caminhada do acontecer humano, nesses últimos milênios. A presença lírica do amor e fortes participações do coro dão um enfeite poético colossal a esse longo poema. Uma vez mais, Pedro Lyra, como um vates profético, faz-se o porta-voz da humanidade com seu agudo e penetrante grito poético.
    Ter a coragem de ler qualquer livro de Pedro Lyra é ter a coragem de lançar-se num redemoinho poético, continuamente rodopiando ao redor de profundezas do ser humano. Isso chega ao extremo em Jogo, 1999. Jogadores, jogos de todo tipo, sentimentos e emoções que envolvem esse fenômeno; tudo que o jogo foi, é e será desaba sobre o leitor levando-o numa cachoeira de correnteza desenfreada do jogo humano em todos os desvelamentos desse fato. Como sempre, é o poeta possuído pela Poesia sendo o porta-voz de mais um modo de o humano desabrochar-se em plenitude. Com tudo isso é um livro, surpreendentemente, repleto de cotidianidades.
    Poderio, 2013, é talvez, o livro mais impactante de Pedro Lyra, é o presentar-se da poesia que pulsa no mundo jurídico, com todas as etapas de sua realização, que é vida humana; mas esse poetar de Pedro Lyra procura demolir, jurídica-poeticamente, entulhos que impedem que essa vida pulse com vigor; toda a obra é um contundente processo, em 75 autos, contra os descaminhos da humanidade. Em toda sua obra poética, Pedro Lyra questiona também as formas poéticas existentes, sempre propondo novos horizontes, como no caso do soneto, das versifrases, da epopeia e, nesse livro, toda uma reestruturação do que seja auto. Quando se pensa que Pedro Lyra já “aprontou” tudo que é possível em criação poética, ele surge com algo mais surpreendente ainda do que tudo que já havia realizado, esse é o caso de Poderio.
    São infinitos os comentários que se podem fazer sobre a poesia de Pedro Lyra, como pesquisar sobre a imensa quantidade de fortuna crítica de altíssima qualidade sobre o autor; um dos casos é o livro A Construção do Poema, de vários autores, com a crítica genética de 8 poemas de Pedro Lyra, mostrando como o poeta é detalhista e cuidadoso na montagem de cada uma das palavras dos versos de seus poemas.
    Outra obra que merece muita atenção é do próprio poeta, Visão do Ser, uma antologia que, conforme o autor, é uma síntese de sua poesia “do século XX”, com grande interesse para o que se publica dos livros Sombras, 1967, e Desamor, 1969, os dois primeiros livros do poeta, que hoje são raridade.
    Quanto mais se lê Pedro Lyra, mais se fica convencido que ele é um dos principais poetas contemporâneos em língua portuguesa; para mim, é o mais importante poeta brasileiro vivo atualmente; por isso, Pedro Lyra só pode ser um Poeta Maior.